Cientistas destacam urgência de transformar resultados de pesquisa em soluções para a poluição plástica
Texto por Mariana Pezzo, Diretora do Instituto da Cultura Científica da UFSCar
O primeiro dia da Escola São Paulo de Ciência Avançada em Microplásticos (ESPCA em Microplásticos), que começou nesta terça-feira (1/9) em Campinas (SP), foi marcado pelo destaque à necessidade de aplicar a pesquisa científica sobre poluição plástica em possibilidades reais de enfrentamento do problema. O evento reúne, até o dia 11, referências internacionais e do Brasil na pesquisa sobre o tema em diferentes áreas de conhecimento, com a participação de 125 estudantes de 31 países e de 19 estados brasileiros.
Na cerimônia de abertura, a Pró-Reitora de Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que sedia o evento, Ana Maria Frattini Fileti, qualificou a Escola como oportunidade única para conscientização sobre a poluição plástica, caracterizada ao longo do dia como um dos principais desafios ambientais da atualidade.
Pedro Fadini, Pró-Reitor de Pesquisa da UFSCar e cientista atuante na pesquisa sobre contaminantes, registrou como ainda há muito a estudar sobre tópicos pouco compreendidos, mas ao mesmo tempo é preciso avançar na aplicação dos resultados das pesquisas científicas como base para políticas públicas.
Rodolfo Jardim de Azevedo, representando a Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapesp) na abertura oficial do evento, também qualificou a ocasião com “um chamado à realização de mais pesquisas, mas também um chamado à reflexão e, principalmente, um chamado à ação na direção do futuro que queremos, de como queremos que a Humanidade siga”. A Fapesp é a financiadora da Escola, que tem também patrocínio das empresas Agilent, ThermoFisher Scientific, Natura, Analítica, Metrohm e Leco.
A Coordenadora da ESPCA, Cassiana Montagner, docente no Instituto de Química da Unicamp, contou como a ideia de realização do evento surgiu de conversa com Walter Waldman, Vice-coordenador, que é docente na UFSCar, e Alexander Turra, da Universidade de São Paulo (USP), há cerca de 18 meses. “O que nos trouxe até aqui foi uma visão compartilhada do poder de transformação da Educação e do poder das pessoas para a mudança. O principal objetivo da Escola é empoderar a próxima geração de cientistas, promover a colaboração com lideranças globais e apoiar os esforços governamentais e diplomáticos no enfrentamento à poluição plástica”, registrou.
Como tornar os plásticos mais seguros?
Na primeira conferência da Escola, Martin Wagner, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, alertou que micro e nanoplásticos são apenas um dentre os cinco tipos de poluição plástica, presente em todo o ciclo de produção desses materiais, e não apenas ao momento do descarte. Esses tipos de englobam desde os macroplásticos e, além deles, dois aspectos que, segundo o pesquisador, recebem pouca atenção: a emissão de gases de efeito estufa no processo de produção dos plásticos e a poluição atmosférica causada pela queima dos resíduos.
Em sua apresentação, o foco do especialista esteve nas substâncias químicas associadas aos plásticos. Wagner é o principal autor do relatório PlastChem, que sintetiza conhecimento disperso em outras fontes de informação. Nele, estão identificadas mais de 16 mil substâncias, das quais em torno de um quarto já são classificadas como danosas por governos ao redor do mundo. “No entanto, mais grave do que isso é o fato de que não existem informações para 10.726 das substâncias listadas, ou seja, nenhum governo avaliou essas substâncias, e portanto não têm como garantir a segurança de materiais que utilizamos cotidianamente”, alertou.
Dentre impactos da exposição a essas substâncias reportados em estudos, Wagner listou transtornos reprodutivos e metabólicos, doenças cardiovasculares, má formações congênitas e alguns tipos de câncer, dentre outras patologias que, segundo o pesquisador, resultam em quase 600 mil mortes prematuras por ano. Estudos recentes também indicam possível relação com obesidade e alterações no ritmo circadiano. “Estamos pagando com a nossa saúde pelo desenvolvimento dessa configuração econômica, e só conhecemos a ponta do iceberg”, reforçou.
Martin Wagner retomou a reflexão inaugurada na cerimônia de abertura da ESPCA, sobre como a pesquisa científica está documentando quase diariamente impactos dos microplásticos em diferentes ambientes e organismos, mas ainda precisa pensar em como usar o grande volume de evidências gerado em transformação.
Dentre os principais problemas a serem enfrentados, ele listou a falta de transparência sobre as substâncias adicionadas aos produtos plásticos. “A indústria não é obrigada a indicar a composição, e aí recursos públicos são gastos para que nós passemos anos fazendo pesquisa e engenharia reversa para descobrir as substâncias presentes nos plásticos”, explicou. Wagner também falou da fragmentação do conhecimento – problema que o PlastChem busca ajudar a resolver – e na complexidade química dos plásticos, que faz que cada produto seja quase único, dificultando a regulamentação.
Sobre essa complexidade, um outro dado compartilhado pelo pesquisador da Noruega é que, das substâncias identificadas, metade tem funções, como, por exemplo, corantes e aditivos que conferem ao plásticos características como a maleabilidade e elasticidade, mas a outra metade é formada por substâncias com o único objetivo de facilitar a produção. Além disso, há uma série de substâncias cuja presença não é intencional, como impuridades ou subprodutos de reações que ocorrem na produção, sobre as quais há pouquíssimo conhecimento e muita dificuldade de controle.
E como tornar os produtos plásticos mais seguros para o ambiente e a saúde humana? Segundo Martin Wagner, pela ampliação da transparência, banimento das substâncias químicas já classificadas como preocupantes e simplificação química, ou seja, design de materiais com menos componentes.
Falando com a audiência formada por jovens cientistas, Wagner alertou sobre a importância de aprendermos com os erros do passado. “Nós estamos perdendo tempo”, afirmou o pesquisador, ao mostrar exemplos de materiais que as pesquisas demoraram muito tempo para indicar como problemáticos. “Ficamos paralisados pela análise, entramos em ciclos de repetição e refinamento de experimentos, geramos uma ‘névoa informacional’ e demoramos para transformar esse conhecimento em mudança. Enquanto isso, vidas são perdidas”, avaliou. “Não é culpa da Ciência, há vários fatores, como a pressão da indústria, mas somos parte do problema. Ficamos focados em compreender o problema e prestamos menos atenção à solução”, afirmou, propondo como caminhos possíveis o compartilhamento do conhecimento produzido e das práticas adotadas por grupos de cientistas em diferentes lugares; a busca por conclusões mais significativas a partir das grandes quantidades de dados que são produzidos; e, justamente, o aprimoramento do processo de transformação dessas evidências em políticas públicas e regulamentação.
Tratado global
Martin Wagner também abordou o Tratado Global contra a Poluição Plástica, instrumento internacional em negociação que se encontra em um impasse no momento. O cientista da Noruega contou como foi criada a Coalisão de Cientistas por um Tratado Efetivo contra a Poluição Plástica, para promover a participação de especialistas nos espaços de negociação, e afirmou que ainda é necessária maior participação de cientistas da América Latina.
Em sua conferência sobre desafios metodológicos na pesquisa sobre microplásticos, que fechou a programação de palestras do dia, Walter Waldman falou justamente de desigualdades entre as pesquisas realizadas no Norte e no Sul do Planeta, que resulta em lacunas de dados sobre vários regiões. Ele alertou, citando outros especialistas, que a Ciência precisa ser global para que as políticas públicas e regulações não sejam enviesadas, e questionou se o mundo precisa de “publicações melhores do Norte global ou de mais dados do Sul Global”?
A ESPCA em Microplásticos segue na quarta-feira (2/9) com conferências de Romulo Ando, da USP, sobre técnicas avançadas para a caracterização de micro e nanoplásticos, e na parte da tarde com a Aula Magna de Richard Thompson, pesquisador do Reino Unido que estuda a temática há mais de 30 anos e cunhou o termo microplásticos. A programação completa pode ser conferida em https://microplasticschool.iqm.unicamp.br/.
