Pesquisas da UFSCar no campo da Educação se destacam em edital do CNPq
(por Analice Garcia e Michele Fernandes)
O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) divulgou recentemente resultado de chamada para apoio a projetos internacionais de pesquisa e, dentre os projetos aprovados, quatro são coordenados por cientistas da UFSCar, sendo três no campo da Educação e um em Engenharia de Materiais. Na Educação, as propostas aprovadas envolvem interação com Portugal, Espanha, Finlândia e Uruguai, em temas relacionados a Ensino de Ciências, Inteligência Artificial e Educação de Surdos. Na Engenharia de Materiais, a parceria é com a China.
Denise de Freitas, docente no Departamento Interdisciplinar de Formação Docente (DIFD), coordena projeto que tem o objetivo de desenvolver um modelo teórico-metodológico capaz de integrar, aos contextos escolares da Educação Básica, alguns referenciais teóricos clássicos na pesquisa em Educação. Os referenciais escolhidos foram o Paradigma da Complexidade, o Pensamento Crítico e a Educação para a Ciência, Tecnologia e Sociedade (Educação CTS). A ideia é que esse modelo possa orientar professoras e professores na construção de suas práticas de referência.
Práticas de referência, no contexto do projeto, são aquelas não necessariamente intrínsecas ao escopo da sala- de- aula, mas provindas de universos da cultura como o científico, o técnico, o artístico, o social etc. Uma vez inseridas no contexto escolar, essas práticas servem de inspiração para a organização dos conhecimentos, das atividades e das formas de aprendizagem. “Nossa ideia é que, a partir da elaboração de materiais de consulta, docentes possam levar essas práticas para a formação inicial que desenvolvem na escola”, comenta a pesquisadora.
O modelo teórico-metodológico a ser desenvolvido também auxiliará na atualização da ferramenta FACTS, criada pelo grupo de pesquisa de Freitas em pesquisa anterior, também financiada pelo CNPq, bem como pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A FACTS (Ferramenta Avaliativa CTS) busca, a partir de critérios eleitos como fundamentais nas três correntes teóricas alvo do novo projeto, auxiliar na análise, no planejamento e no aprimoramento de práticas pedagógicas, materiais didáticos, programas formativos e propostas educacionais.
“Trabalhamos com perspectivas teóricas que dialogam em suas matrizes epistemológicas. No entanto, não possuímos, hoje, nenhuma proposição de um quadro teórico que as vincule. O que pretendemos nesse projeto é criar uma articulação entre pressupostos teóricos que sirva para orientar o trabalho com questões contemporâneas como, por exemplo, a influência da inteligência artificial na aprendizagem”, explica Freitas. A parceria, fruto de interações anteriores, será desenvolvida entre UFSCar (Brasil), Universidade de Aveiro (Portugal) e Universidade de Barcelona (Espanha) e envolverá o trabalho com escolas nesses três países.
Inteligência artificial generativa
A relação entre Educação e inteligência artificial (IA) mencionada por Denise de Freitas é o foco de outro dos projetos da UFSCar aprovados, coordenado por Antônio Álvaro Soares Zuin, docente no Departamento de Educação (Ded), que atuará em parceria com a Universidade de Tampere, na Finlândia. O objetivo é investigar como os usos da IA generativa reconfiguram a produção de conhecimento nos processos cognitivo-formativos de estudantes na Educação Superior. Por meio de uma análise comparativa entre Brasil e Finlândia, a proposta é compreender que modificações ocorrem, na esfera cognitiva e no processo de elaboração e transformação da informação em conhecimento, quando estudantes utilizam recursos de IA.
O trabalho prevê a realização de missões de pesquisa ao país europeu; de estágios de pós-doutorado de cientistas do Brasil na universidade finlandesa; e de observações de campo e aplicação de questionários no país parceiro e também no Brasil. “A relevância da proposta de cooperação internacional se arvora no fortalecimento das relações entre os grupos de pesquisa dos dois países, com vistas ao intercâmbio de doutorandos e pesquisadores de pós-doutorado, à produção acadêmica conjunta, à divulgação de resultados de pesquisa e ao estabelecimento de novas parcerias coordenadas pelas duas universidades”, comenta Zuin.
Educação Especial
Vanessa Regina de Oliveira Martins, docente no Departamento de Psicologia (DPsi), coordena projeto na área da Educação de Surdos, em parceria com a Universidade da República (Udelar), no Uruguai, e com o Instituto Politécnico de Setúbal, em Portugal. O projeto dá continuidade a colaboração iniciada durante pós-doutorado da pesquisadora completado em 2024.
Durante esse pós-doutorado, Martins criou, a partir de alguns processos de avaliação da aprendizagem desenvolvidos para crianças ouvintes (não surdas), um instrumento pedagógico chamado IPAS-Libras, para auxiliar docentes bilíngues do Ensino Fundamental I a avaliar o desenvolvimento da aquisição do texto narrativo produzido em Língua de Sinais – compreendendo-o, nesse caso, não apenas como a palavra escrita, mas também como a palavra desenhada pelos gestos. Esse instrumento teve a intenção de fornecer critérios de análise claros para que, a partir de registros em vídeo das crianças surdas, fosse possível identificar como se dá a apropriação da linguagem e a produção textual em Libras (Língua Brasileira de Sinais) dessas crianças.
A pesquisadora explica que, da mesma forma como o texto escrito é o registro utilizado para avaliação do aprendizado de crianças ouvintes, em seu processo de alfabetização, a gravação em vídeo é o registro no caso das crianças surdas. No projeto, a docente vai trabalhar com a aplicação e a análise da usabilidade do instrumento IPA-Libras, através da formação continuada junto a docentes bilíngues da Educação Básica no Brasil e no Uruguai. No caso do país latino-americano, Martins contará com um parceiro especial, o professor Eduardo Peluso Crespi, que cunhou um dos conceitos-chave utilizados pela docente na sua abordagem para a Educação de Surdos. O conceito, de “textualidade diferida”, implica justamente a compreensão de que, da mesma forma que o texto escrito tem registros gráficos (letras e palavras escritas), o registro em vídeo tem equivalências de texto (para uma pessoa surda), de maneira que é possível encontrar correlações e critérios para avaliar, inclusive, os gêneros textuais presentes nesse tipo de comunicação.
“Temos carência de materiais produzidos para crianças surdas em Língua de Sinais e grande demanda de diretrizes específicas para olhar o desenvolvimento linguístico dessas crianças, uma vez que elas entram na escola sem o conhecimento da Língua e a aprendem durante o processo de aprendizagem do conteúdo”, comenta Martins.
A Diretora do Centro de Educação e Ciências Humanas (CECH) da UFSCar, ao qual as pesquisas em Educação estão vinculadas, Ana Cristina Juvenal da Cruz, e o Vice-Diretor do Centro, Adelcio Camilo Machado, destacam que as aprovações expressam o reconhecimento, por parte do CNPq, do potencial de desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação das Humanidades, o que se mostra muito relevante em um cenário em que há a exclusão sistemática da dimensão humana nas concepções de tecnologia e inovação, por exemplo. Segundo Cruz e Machado, a importância dessas aprovações está não apenas nas contribuições que cada iniciativa promove em termos de conhecimentos específicos, mas também no que elas representam, juntas, no reconhecimento para outros campos ligados às Humanidades.
Manufatura aditiva e reciclagem de alumínio
Na Engenharia, Piter Gargarella, docente no Departamento de Engenharia de Materiais (DEMa), foi o pesquisador contemplado. A aprovação permitiu ao docente oficializar colaboração já existente com profissionais da China. Seu projeto dará continuidade à parceria com o Instituto de Materiais da Universidade de Xangai e com a Escola de Ciência e Engenharia de Materiais da Universidade de Engenharia e Ciência de Xangai, em pesquisa com ligas metálicas.
A proposta é desenvolver, a partir de material reciclado e pelo método de manufatura aditiva, novas ligas de alumínio com propriedades mecânicas de alta resistência à temperatura, gerando assim um produto com grande valor agregado que possa ser utilizado em peças destinadas aos setores aeronáutico e automotivo. “O Brasil lidera o ranking mundial de reciclagem de latas de alumínio, reaproveitando mais de 90% da produção nacional. Porém, grande parte desse material gera produtos de baixo valor agregado, como peças fundidas simples ou novas latas. Elevar o valor do alumínio reciclado representa uma oportunidade estratégica para ampliar sua rentabilidade e suas possibilidades de uso”, explica Gargarella.
A parceria internacional permitirá à equipe do pesquisador adquirir novos conhecimentos, uma vez que os parceiros chineses têm grande experiência na área e acesso a uma infraestrutura de equipamentos de ponta e peças com maior variedade e complexidade geométrica.
