Pesquisa indica caminho para desenvolvimento de antivirais contra o Zika

Pesquisa conduzida no Departamento de Química (DQ) mostrou resultados promissores ao identificar uma nova classe de moléculas capazes de interferir na replicação do Zika.

O vírus Zika ganhou projeção mundial a partir da epidemia registrada no Brasil entre 2015 e 2016, que completou 10 anos e marcou profundamente a saúde pública no País. Transmitido principalmente pelo mosquito Aedes aegypti, o Zika foi, inicialmente, associado a sintomas leves, como febre, dores de cabeça, manchas na pele e dor nas articulações. No entanto, a epidemia revelou consequências graves, especialmente a relação entre a infecção de gestantes e o surgimento da síndrome congênita do Zika, incluindo a microcefalia. Uma década depois, embora os surtos tenham diminuído, o vírus continua circulando e ainda não há vacina ou antivirais específicos para combatê-lo.

Pesquisa conduzida no Departamento de Química (DQ) da UFSCar mostrou resultados promissores ao identificar uma nova classe de moléculas capazes de interferir na replicação do Zika. O estudo, publicado em um importante periódico científico europeu, mostrou que um composto baseado em fenilureia pode atuar sobre uma enzima essencial ao vírus, abrindo novas perspectivas no desenvolvimento de antivirais.

O trabalho foi desenvolvido pelas estudantes de doutorado Hérika Vidal, Penina Mourão e Ana Claudia Bernardes, do Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ). A pesquisa teve como foco a enzima não estrutural helicase 3 (NS3Hel) do Zika, responsável pela separação das fitas do RNA viral, etapa fundamental para que o vírus consiga se multiplicar dentro das células humanas. Quando essa enzima não funciona adequadamente, o processo de replicação é comprometido, reduzindo a capacidade de infecção.

Para identificar compostos capazes de ação sobre a enzima, as pesquisadoras utilizaram uma técnica avançada chamada triagem cristalográfica. Nesse método, milhares de fragmentos de moléculas são testados diretamente sobre cristais da enzima, permitindo observar quais fragmentos conseguem se ligar e em quais regiões essa ligação ocorre.

A partir da triagem de mais de 1.500 fragmentos, foram identificadas algumas dezenas com capacidade de ligação, ainda que fraca, a regiões críticas para o funcionamento da NS3Hel. Com base nesses fragmentos iniciais, a equipe desenvolveu 59 novos compostos em laboratório, sendo 27 deles inéditos. Em seguida, a interação desses compostos com a NS3Hel foi avaliada por diferentes testes experimentais, possibilitando analisar o potencial de cada um para interferir no funcionamento da enzima.

Embora vários compostos tenham apresentado capacidade de se ligar à enzima, a maioria exibiu afinidade limitada, o que restringe seu potencial terapêutico. Em contraste, um composto derivado de fenilureia se destacou por apresentar afinidade razoável, capacidade moderada de reduzir a replicação viral e ausência de efeitos tóxicos significativos nos testes realizados, características consideradas promissoras em estágios iniciais do desenvolvimento de fármacos antivirais. Os testes biológicos foram feitos em parceria com Rafael Guido, docente no Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP).

O estudo trouxe também uma mudança de perspectiva estratégica, ao indicar que atuar em uma determinada região - a região de saída do sítio de ligação ao RNA da helicase, em vez da entrada - pode ser mais eficaz para interferir na replicação do vírus. Esse achado não apenas orienta o aprimoramento do composto identificado, como também pode influenciar novas pesquisas na área, contribuindo para acelerar a busca por antivirais contra o Zika e outros flavivírus como os da dengue e febre amarela.

A pesquisa foi desenvolvida no Centro de Excelência para Pesquisa em Química Sustentável (CERSusChem), sob coordenação de Arlene Gonçalves Corrêa, docente no DQ. Os resultados foram publicados no European Journal of Medicinal Chemistry, e o artigo pode ser acessado por meio do link da revista. O estudo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, processos 2013/ 07600-3, 2021/12394-0, 2022/07493-1, 2024/15526-2 e 2024/04805- 8), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, processos 303062/2025-8 e 303973/2023-4) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

(Texto: Thiago Wisley Barbosa de Farias)