IEAE: Livro aborda desafios postos às ciências no período apelidado de Antropoceno

Obra é fruto dos Diálogos Avançados, parceria entre institutos de Estudos Avançados de UFSCar e USP

O livro “As Ciências diante do Antropoceno”, recém-lançado, inaugura a coleção Diálogos Avançados, parceria entre o Instituto de Estudos Avançados e Estratégicos (IEAE) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP) – Polo São Carlos. A coletânea é fruto da primeira edição dos encontros interdisciplinares intitulados “Diálogos Avançados” que, em 2024, refletiu justamente sobre os desafios postos às ciências diante do período apelidado de Antropoceno. Os debates envolveram cientistas de áreas diversas, abordando – nos encontros e, agora, nos 10 capítulos que compõem a publicação – questões conceituais, políticas e terminológicas relacionadas ao Antropoceno; biodiversidade, vida e morte das espécies; vida e energia; e urbanização planetária, ecologias e desigualdades.

No capítulo de apresentação, Adilson Jesus Aparecido de Oliveira, Diretor do IEAE, e Elisabete Moreira Assaf, Coordenadora do Polo São Carlos do IEA, registram a especialização e, assim, a necessidade do mundo acadêmico ampliar diálogos entre as diferentes áreas de conhecimento para, de fato, provocar mudanças positivas na sociedade, diante de desafios cada vez mais complexos para os quais as soluções são, inevitavelmente, interdisciplinares. Situando o Antropoceno como conceito que carrega “um grande desafio intelectual e ético do nosso tempo”, Oliveira e Assaf já adiantam como, no livro, há autores que veem nele “uma oportunidade de integrar saberes e compreender os impactos humanos em escala global” e outros com visão crítica, apontando “os limites do termo, seja por seu caráter ainda impreciso do ponto de vista geológico, seja por atribuir responsabilidades à humanidade como um todo”.

O capítulo “Existe mesmo um Antropoceno ou será o Velho Colonial Capitalismo que devora a Terra a todas as pessoas”, de Casé Angatu, docente na Universidade Estadual de Santa Cruz, aborda a relação entre os povos indígenas e o conceito de Antropoceno, trazendo justamente a crítica a um uso que desconsidera as contribuições desses povos para a preservação da Natureza e, em contraposição, a luta pela valorização dos saberes ancestrais. José Eli da Veiga, Professor Sênior no IEA-USP, também adota perspectiva histórica, discutindo como um outro conceito, de “desenvolvimento sustentável”, se modificou ao longo do tempo. Vera Alves Cepêda, do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar, expande a reflexão sobre o Antropoceno da realidade ambiental para o que aponta como crise social e política que exige reavaliação das lógicas que sustentam a sociedade contemporânea.

Os capítulos seguintes focam aspectos mais específicos do vasto campo de reflexões possível a partir da proposição de um Antropoceno. Hugo Sarmento, do Departamento de Hidrobiologia da UFSCar, fala de biodiversidade e a dinâmica histórica de extinções de espécies, destacando que a taxa atual não encontra precedentes nos processos anteriores. O autor defende, como caminhos para possíveis soluções, a construção de uma consciência planetária, a educação ambiental e o fortalecimento das governanças participativas.

Stelio Marras, professor de Antropologia no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, introduz um segundo conceito para o diálogo com o Antropoceno: o de Torporceno, que anuncia uma fase de apatia e negação das realidades ambientais. No capítulo de sua autoria, opera, concomitantemente, sobre a distinção e a interdependência entre humanos e não humanos, na busca por formas de convivência mais equitativas.

O tema abordado por Ernesto Chaves Pereira, do Departamento de Química da UFSCar, é a transição energética, em um contexto de emergência diante das mudanças climáticas. O autor fala em eficiência energética, mas também em justiça energética, essencial em um contexto em que cerca de 770 milhões de pessoas vivem sem eletricidade. Para ser inclusiva, defende, a transição deve garantir acesso universal à energia renovável. Sonia Maria Barros de Oliveira, Professora Sênior no Instituto de Geociências da USP, também explora o tema da energia, tratando de sua relação com a vida na Terra desde as primeiras formas de vida até a atualidade.

Maria Aparecida de Moraes Silva, atuante no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar, discute como o crescimento das cidades e as transformações do campo levam à extração excessiva de recursos naturais e à degradação social. A autora apresenta suas reflexões olhando particularmente para a história da expansão capitalista no estado de São Paulo e para processos associados à extração de lítio no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. As desigualdades socioambientais nas cidades estão no foco do capítulo que encerra a coletânea, de Marcel Fantin, docente no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP. O autor utiliza, para sua apresentação, a plataforma UrbVerde, que combina tecnologias de sensoriamento remoto, ciência cidadã e governança colaborativa para monitorar os efeitos das ilhas de calor e a distribuição desigual de áreas verdes nas cidades brasileiras.

Junto aos dirigentes dos institutos, também são organizadores da obra David Moreno Sperling, Elisabeth Márcia Martucci e Cláudia Maria Simões Martinez. O livro, em sua versão digital, pode ser baixado gratuitamente no site do IEAE e no site do IEA. No site dos Diálogos Avançados, também é possível conhecer os debates realizados em 2025, com o tema “Inteligências”, e ficar informado sobre as próximas edições.